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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gregório Duvivier - Coluna na Folha de São Paulo #trechos #anotações

"Aprendeu a falar baixo, para não atrapalhar a ação principal. Aprendeu a concordar com o que estavam dizendo. Aprendeu a gesticular como quem concorda. Quem está em segundo plano nunca discorda. O pessoal desfocado passa a vida concordando. A não ser em fase de protestos. Lá estava ele, na Paulista, discordando. Educadamente. Como quem concorda." (Werner, 26 de agosto de 2013)


"A vida só é possível enquanto a gente esquece que a morte está à espreita." (Spoilers, 21 de julho de 2014)



"A vida é inverossímil." (Spoilers, 21 de julho de 2014)



"Só se faz um samba com tristeza. A boa piada precisa de inteligência e de desgraça. Piada sem desgraça é uma tristeza. Piada sem inteligência é uma desgraça." (O Palhaço Grock, 18 de agosto de 2014 - Folha)



"Nunca me senti tão exposto. Ao contrário do ator, o colunista, esse, sim, é um exibicionista crônico. Cada texto é uma biópsia. Não consigo parar de pensar que cada pessoa que sorri para mim na rua sabe das minhas convicções mais íntimas –e tenho mais vergonha das minhas convicções que da minha bunda. Não se faz crônica sem se abrir por completo –saudades do teatro, onde guardava minhas convicções e minha bunda ao abrigo do olhar do público (ok, a bunda nem sempre)." (Ator e autor, 10 de novembro de 2014 - Folha)


"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama", meu pai sempre repete (mas a frase é do Victor Hugo). Todos os amores terminam —alguns amigavelmente, chorando no banheiro, outros com humilhação pública e sangue na testa, outros com a morte. "Para isso temos braços longos, para os adeuses"." (A cerimônia do adeus, 08 de dezembro de 2014 - Folha)

"Tem uma hora —e dizem que essa hora sempre chega— que para de doer. A parte chata é que, até parar de doer, parece que não vai parar de doer nunca." (A cerimônia do adeus, 08 de dezembro de 2014 - Folha)


"Tive um papo bom com o Fabrício Corsaletti, nosso cronista mais puro, descendente direto do Rubem Braga: "Crônica não tem nada a ver com opinião, não tem nada a ver com dados e porcentagens, não tem nada a ver com tentar convencer ninguém de nada. Quando a crônica faz isso corre o sério risco de virar um artigo" -e ele falava a palavra "artigo" como um médico fala de uma doença gravíssima. "Seu texto foi contaminado por um vírus e corre o sério risco de virar um artigo."" (Crônica de Raiz, 18 de maio de 2015 - Folha)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Antônio Prata - Coluna na Folha de São Paulo #trechos #anotações

"A repetição não é necessariamente um defeito. Veja Woody Allen. Nelson Rodrigues. Vonnegut. Rubem Braga. Só temos duas ou três coisas a dizer sobre a vida e as vamos reconfigurando, polindo, tentando clareá-las ao longo do tempo." (Mudança, 17 de agosto de 2011)



"Decido: levarei tudo comigo. De madrugada, o caminhão de lixo mastigará apenas os canhotos dos talões de cheque, velhas contas de luz e declarações do imposto de renda. Amores eternos, mesmo os mais fugazes, amigos que perdemos e os sonhos antigos devem permanecer sempre conosco: senão no fundo do coração, ao menos no fundo de uma gaveta." (Mudança, 17 de agosto de 2011)

[Esse trecho lembra "keep your old love letters, throw aways your old bank statements" do vídeo "wear sunscreen" - que por sinal também foi escrito por uma colunista... talvez seja interessante conferir os textos de Mary Schmich]



"Foi com grande assombro e não menor repúdio que eu descobri, dia desses, que as estantes dos supermercados chamam-se gôndolas.

Até então, tinha cá para mim que gôndolas eram utilizadas única e exclusivamente para levar casais apaixonados, espiões russos e turistas japoneses pelos canais de Veneza." (Os Mercadores de Veneza, 24 de agosto de 2011)



"Nunca fui a Veneza. Talvez seja melhor assim. Sua existência, não confirmada pessoalmente, continua a fazer parte do meu imaginário infantil: a cidade cujas ruas são feitas de água está para São Paulo como os unicórnios para os cavalos, os vulcões para as montanhas, os dinossauros para as lagartixas." (Os Mercadores de Veneza, 24 de agosto de 2011)



"É curioso: enquanto a natureza, esse monstro acéfalo, paga regiamente seu tributo à perfeição, mandando pro beleléu tudo o que não se adapta (alô, Neandertal!), nós toleramos uma quantidade absurda de inutensílios, como se suas existências fossem incontornáveis feito a morte, os impostos e a trilha sonora do vizinho." (Não Funciona, 28 de setembro de 2011)




"Secador de mãos a ar. Funciona muito bem -se você não tiver mais nada a fazer pelo resto da tarde, além de ficar virando as mãos de um lado pro outro, dentro de um banheiro público, só para que o dono do estabelecimento economize R$ 0,05 em folhas de papel. E não me fale em ecologia, pois o secador é elétrico, somos todos adultos e sabemos que a eletricidade não vem da cegonha: por mais limpa que seja, é sempre fruto de alguma sacanagem com o ambiente."(Não Funciona, 28 de setembro de 2011)




"Crônicas são como cogumelos, brotam onde querem, espontaneamente, e não convém colhê-las muito antes da hora nem demorar para tirá-las da terra, sob o risco de secarem e perderem o sabor." (Anistia para o tomate seco, 05 de outubro de 2011)




"Vejamos: você entra numa farmácia, pergunta se tem Aspirina e o funcionário responde com um peremptório "não". O que você pensará? Que aquela é uma farmácia ruim. Se, porém, ele disser que "no caso, Aspirina a gente não vai tá tendo, hoje", a coisa muda completamente de figura. O "no caso" sugere que, numa situação normal, ele teria Aspirina. Logo, "hoje", estamos numa situação anormal. Qual seria essa situação? Haveria um surto de enxaqueca, no bairro? Boatos de que a Copa e as Olimpíadas levariam à falta de ácido acetilsalicílico teriam desencadeado uma busca frenética pelo produto? Você não sabe, ele sabe, e, num segundo, o que era uma farmácia vagabunda transforma-se numa farmácia sob estado de exceção, enquanto você, em vez de um cliente insatisfeito, torna-se um náufrago à deriva no mar da especulação." (No caso, com certeza - 12 de outubro de 2011)




"Acontece que nós, os cronistas, somos uns sujeitos meio zarolhos, como essas crianças que tiram o carrinho da caixa e passam a brincar, entusiasmadas, com a caixa." (Alforria, 26 de outubro de 2011)




"Por trás da falsa descontração dos tuítes, podemos ver as piadas encolhendo a barriga, as críticas estufando o peito, as celulites de nossas inseguranças escondidas sob leves camadas de sarcasmo. O resultado é uma abundância de opiniões e uma escassez de vozes. Muita inteligência e pouca sinceridade. Todo mundo bem protegidinho e parecido, como os corpos corrigidos no computador" (Photoshop, 02 de novembro de 2011)




"Sugerir que a PM possa entrar em todos os lugares, menos no campus da universidade, não é um pensamento libertário, é um vício classista: a velha ideia de que, neste país, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros." (Assim não, pessoal - 09 de novembro de 2011)

[citação de "a revolução dos bichos" do Orwell <3]


"Quem aí não sente, mesmo que em menor grau, que abandonou parte de seus anseios de juventude em troca do comércio -profissional, social, afetivo- da vida cotidiana?

A poesia de Rimbaud -como, aliás, toda grande poesia- nos lembra das infinitas possibilidades escondidas sob essa fina coberta que, com afinco, esticamos todas as manhãs sobre nossas ambições frustradas, nossos sonhos calados por covardia ou, pior, por preguiça." (Conformistas sem causa, 23 de novembro de 2011)

"É comum perguntarem a nós, escritores, de onde vêm as ideias. Nunca sei bem o que responder, pois raramente as tenho: escrevo bem mais em cima de observações, como um viajante que anota no bloquinho o cenário do lado de lá da janela, do que como criador, aquele que faz brotar as janelas e o cenário das páginas do seu bloquinho. Vez por outra, contudo, sou agraciado com um lampejo de inspiração e experimento esta alegria que é ver surgir, do banal, o extraordinário -como do milho, a pipoca." ('Cool-Eekah', 21 de dezembro de 2011)


"Estou fazendo graça; sinto-me um tanto hipócrita. Não fujo à regra. Também ando por aí, afobadinho e ansioso, querendo otimizar meu tempo, com raiva dos outros sempre que se tornam obstáculos à plena realização das minhas capacidades produtivas.

Que ridículo. No fim das contas, o único momento em que seremos 100% produtivos, em que nem uma célula será desperdiçada e nem uma caloria gasta em vão, é quando virarmos adubo para o capim do cemitério. E nessa hora, meus caros, enquanto estivermos devolvendo ao cosmos a energia que nos foi brevemente emprestada, não precisaremos nos preocupar: ninguém vai telefonar para atrapalhar nosso trabalho. Ou melhor, o das minhocas." (Grave, o recado - 15 de fevereiro de 2012)

"Que virtude há no autocontrole de quem não tem coragem de se descontrolar?" (Pé na jaca x pé no talco, 22 de fevereiro de 2012)

"Como Sérgio Porto já sabia, quem gosta de doce de coco preza muito o circunflexo." (Ora bolas, carambolas - 14 de março de 2012)

"E, ora bolas, carambolas: uma vez que todos nós nascemos, morreremos e não há nenhum sentido em estarmos aqui escrevendo crônicas, fazendo obturações, redigindo contratos ou brigando com a Marinalva do 702 por causa da vaga na garagem, tudo é absurdo e, portanto, risível. Só depende do jeito que olhamos." (Ora bolas, carambolas - 14 de março de 2012)

"era preciso acordar às 6h15 para estudar química orgânica e os adultos ainda queriam me convencer de que aquela era a melhor fase da vida.
Claro, observando-os, era óbvia a razão da nostalgia: seres de calças bege e pager no cinto, que gastavam seus dias em papinhos de elevador, sem ambições maiores do que um carro novo, um requeijão com menos colesterol, o nome na moldura de funcionário do mês e ingressos para o Holiday on Ice no fim de semana." (Quem ri por último ri Millôr, 04 de abril de 2012)

"Foi então, meus caros, que eu vi a luz -e a luz veio na forma de um livro; "Trinta anos de mim mesmo", do Millôr Fernandes.
A primeira página que eu abri trazia um quadrado em branco, com a seguinte legenda: "Uma gaivota branca, trepada sobre um iglu branco, em cima de um monte branco. No céu, nuvens brancas esvoaçam e à direita aparecem duas árvores brancas com as flores brancas da primavera". Logo adiante estava "O abridor de latas", "Pela primeira vez no Brasil um conto inteiramente em câmera lenta" -narrando um piquenique de tartarugas que durava uns 1.500 anos. Mais pra frente, esta quadra: "Essa pressa leviana/ Demonstra o incompetente/ Por que fazer o mundo em sete dias/ Se tinha a eternidade pela frente?".
Lendo aquelas páginas, que reuniam o trabalho jornalístico do Millôr entre 1943 e 1973, compreendi que não estava sozinho em meu estranhamento: a vida era mesmo absurda, mas a resposta mais lógica para a falta de sentido não era o desespero, e sim o riso. Percebi, como se não bastasse, que se agregasse alguma graça aos meus resmungos poderia fazer daquele incômodo uma profissão. Dos 19 anos até hoje, jamais paguei uma conta de luz de outra forma." (Quem ri por último ri Millôr, 04 de abril de 2012)

"Não, pior: um SMS da operadora é como uma mensagem numa garrafa, boiando no meio do mar. Você pega a garrafa. Tira a rolha. Desenrola o papel. Lê. E então descobre, horrorizado, que o náufrago é você." (Adquira já o plano Freedom Plus, 02 de maio de 2012)


"Claro que ainda nos chegam envelopes por baixo da porta, todos os dias, mas isto que agora encontramos próximo ao capacho assemelha-se tanto a uma carta como um jingle a uma sinfonia. Contas, propagandas, cardápio de restaurante chinês: tristes arremedos das gloriosas folhas de papel que outrora relataram o descobrimento de continentes, alimentaram amores impossíveis, aproximaram amigos distantes; ringues nos quais travaram-se as mais apaixonadas pelejas intelectuais." (Adeus às cartas, 30 de maio de 2012)



"Ah, que época bunda-mole a nossa! Elegemos como principal virtude justo a mais medíocre: o autocontrole. Foi-se o tempo em que o herói era aquele capaz de romper as amarras sociais, morais, históricas. De enfrentar o mundo em nome de um ideal ou de dar um piparote nas sentinelas do superego em busca de seu eu profundo.

O Super-Homem atual é o que, avaro com os prazeres, melhor consegue inserir-se nos escaninhos disponíveis do mundo. É um profissional bem-sucedido e com barriga de tanquinho. Seus feitos não serão medidos pelas marcas deixadas na história, mas pelo extrato da conta bancária e pela taxa de colesterol.
Não falo de fora. Sou filho da época, também tento enquadrar-me neste anódino "zeitgeist", de sonhos tão mirrados como as cinturas de nossas divas: sou funcionário esforçado, corro na esteira, acredito nos poderes milagrosos da quinua. Quando ponho a cabeça no travesseiro, contudo, envergonho-me e lamento a grandeza perdida.
Outrora buscávamos a nascente do Nilo, a verdade última das coisas, nos metíamos no mato sem cachorro, em mares nunca dantes navegados, nos entregávamos a amores e substâncias proibidas atrás de paraísos naturais ou artificiais. Agora, aqui estamos nós, usando 30 séculos de conhecimento acumulado para vender mais pasta de dentes, mais jornais, empenhados em descobrir como fazer dez arruelas ao custo de nove e receber uma promoção; aqui estamos nós, reinando sobre a natureza, mas comendo barrinhas de cereais.
Onde foi que nós erramos? Em que beco escuro do século 20 um Mefisto chinfrim sussurrou em nossos ouvidos que alcançaríamos a vida eterna caso abríssemos mão de nossos corações em nome do "sistema cardiovascular"? Que bizarra inversão foi essa que nos fez acreditar que a função das comidas é facilitar o trabalho do sistema digestivo, e não que a função do sistema digestivo é lidar com nossas comidas? Desculpem por ser chulo, caro leitor, mas eis a ambição de nossa triste humanidade: fazer um cocô durinho." (Autocontrole, 20 de junho de 2012)

"é de se suspeitar que o "sai fora!" na minha orelha signifique que, por mais que o "Espírito Olímpico" ecoe pelas teletelas de Eurásia, Lestásia e Oceania há vários meses, o velho "No future!" dos Sex Pistols ainda tenha a sua ressonância. Talvez hoje mais do que nunca." (Sai fora, 26 de julho de 2012)


"O mesmo problema, é verdade, não ocorre com os tais "guardanapinhos", pois eles sequer te dão a esperança de conseguir um comprimento decente: já saem da caixa vertical previamente cortados, com as dimensões perfeitas para a higiene --de gnomos, de duendes, de hobbits; não de seres humanos. É revoltante." (Papel higiênico rosa, 05 de setembro de 2012)



"Falamos do passado, mas não muito. Falamos do presente, mas não muito. Há uma vontade genuína de se aproximar e o tácito reconhecimento dessa impossibilidade.

Dois velhos amigos, quando se reveem, voltam no ato para o território comum de sua amizade. Reconstroem o pátio da escola, o Centro Acadêmico, o prédio em que moraram --e o adentram. Em três chopes, refez-se o antigo elo. Para os ex-amantes, no entanto, é impossível restabelecer o elo, o elo morreu com o amor, era o amor. O que sobra é feito um cômodo dentro da gente, cheio de móveis e objetos valiosos, porém trancado. Nesses almoços, estamos sempre no corredor, olhando para a porta fechada. Sentimos saudades do que está ali dentro, mas não podemos nem queremos entrar. Como disse um grego que viveu e amou há 2.500 anos: não somos mais aquelas pessoas nem é mais o mesmo aquele rio." (Ex, 20 de fevereiro de 2013)

[RECORDAÇÃO]
05/06/2013 -  Folha
"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado"..."Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim..."... "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum (...) tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada." " "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "Primeiro de junho de 1988?" "tá fazendo 25 anos, hoje."
[Eles se casaram no mesmo dia que se conheceram? Porque faz ao mesmo tempo 25 anos de casados e 25 anos que se conheceram no bar em Santos. E a filha casou com que idade, se eles se conheceram há 25 e a esposa morreu há 5 anos?]

"Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida." (Recordação, 05 de junho de 2013 - Folha)


"Outro dia, reparei que sempre escovo os dentes com pressa, como se estivesse atrasado para um compromisso. Que compromisso é esse? Não sei. É como se houvesse nascido atrasado, chegado ao mundo meia hora depois e a todo instante tentasse recuperar os minutos perdidos." (Pé de cachimbo, 28 de julho de 2013 - Folha)



""E depois que a gente morre, o que você acha que acontece?", perguntou minha vizinha. "Acaba." "Nossa, é muito triste pensar assim." É. E quanto mais triste me parece, mais bonito fica. Do pó viemos, ao pó voltaremos, cá estamos neste "caminho entre dois túmulos", sabendo que "não há metafísica no mundo senão chocolates" e, contudo, vez por outra, nos botamos "comovidos como o diabo"." (Laranjas e chocolates, 04 de agosto de 2013 - Folha)



[Atenção: "brindávamos aos heróis que abriam nossos olhos pro absurdo: Drummond, Zappa, Monty Python, Campos de Carvalho."]



"O esporte, contudo, assim como a arte, é o lugar do delírio. Se for encarado racionalmente, não faz nenhum sentido: 11 homens de cá contra 11 homens de lá, tentando fazer uma esfera de couro e ar passar por cima de uma linha de cal —sem usar as mãos. É toda a carga irracional colocada no espetáculo que lhe dá sua razão de ser: ali projetamos tragédias individuais e coletivas, plantamos e colhemos significados." (O álbum da copa, 11 de maio de 2014 - Folha)



"Às vezes, em bate-papos com leitores, me perguntam por que raramente escrevo sobre o assunto da semana. Digo que a chance de eu ter algo relevante a dizer sobre o assunto da semana é pequena, ainda mais concorrendo com jornalistas e especialistas que estão debruçados sobre a questão. Serei mais profundo ou divertido, terei, enfim, mais chance de dizer algo verdadeiro (mesmo que pequeno, mas verdadeiro, e é isso que importa) se mirar no que eu conheço: a minha infância, o amigo que reencontrei, os primeiros passos da minha filha.

Também costumam perguntar, nesses bate-papos, se por falar sempre de si mesmo o cronista não seria um autocentrado e, portanto, um alienado. Acho o contrário: o cronista procura nele mesmo (ou melhor, numa ficção de si mesmo) os assuntos que possam tocar os outros. Todo mundo teve infância, todo mundo tem amigos que a vida afastou, mesmo quem não é pai ou mãe sabe o que é uma criança. Se ao falar do meu umbigo eu não cutucar o seu, a relação umbilical da literatura não se estabeleceu: pode escrever pro "Painel do Leitor"." (O agudo e a crônica, 28 de setembro de 2014 - Folha)


"Devo seguir falando da minha infância, de um amigo que reencontrei, dos primeiros passos da minha filha? Às vezes, acredito que sim: que a crônica existe para iluminar uns rincõezinhos assombreados do cotidiano, pra abrir nossos olhos para a graça que passa despercebida, pelas esquinas –e que isso também é um ato político.

Outras vezes, porém, me vejo como um nobre gordo, na França, em 1788, comendo codornas enquanto o povo morre de fome, de bala ou é decapitado do lado de fora e nos calabouços do castelo." (O agudo e a crônica, 28 de setembro de 2014 - Folha)


"Ser feliz não é nada fácil. O cérebro humano, esse computador genial e incompetente, inventa aviões, concebe romances e pinturas com mais facilidade do que nos faz feliz. Que o digam, ou melhor, não o digam, Santos Dumont, Hemingway e Van Gogh, que jogaram a toalha." (#precisamosfalarsobreaborto, 23 de novembro de 2014 - Folha)



"Quando eu era pequeno, em férias como estas, na fazenda, gostava de deitar na grama, à noite, e olhar o céu estrelado até ter a impressão de que não era ele quem estava em cima e eu, embaixo, mas o contrário: com um frio na barriga, me sentia desabando no vazio.

Deitado no banco, agora, olho o céu por um tempo e me volta a impressão. A vertigem é até maior hoje, pois sei que não se trata de uma impressão: estamos mesmo desabando no vazio. ("Assim será nossa vida:/Uma tarde sempre a esquecer/Uma estrela a se apagar na treva/Um caminho entre dois túmulos")." (Meia abdominal, 12 de julho de 2015 - Folha)

sábado, 27 de junho de 2015

O Curto Verão da Anarquia (Hans Magnus Enzensberger - 1972) #trechos

"Foi assim que, desde os tempos mais antigos, transmitiu-se a História: como saga, como epopeia, como romance coletivo." (pg.15)

"Eppur si muove!" (E, no entanto, move-se.) - Galileu
"Ich kann nicht anders." (Aqui estou, não posso agir de outro jeito.) - Lutero
"Nenhuma investigação científica poderia apagar estas palavras. A prova de que nunca foram ditas não diz nada contra a superioridade delas." (pg.15)

"A História é uma invenção para a qual a realidade fornece os elementos. Não é, porém, uma invenção arbitrária. A curiosidade que desperta se baseia no interesse dos que a narram; permite àqueles que a escutam reconhecer e determinar melhor seus próprios referenciais como também os de seus inimigos. Sem dúvida, devemos muito à investigação científica desinteressada; no entanto ela é como um pobre diabo, uma figura artificial. Só o verdadeiro sujeito da História deixa sua sombra. E esta sombra é projetada como ficção coletiva." (pg.16)

"Na Espanha a palavra liberalismo não significou outra coisa senão o aniquilamento da antiga propriedade comunal, sua "livre" venda, o confisco de bens dos camponeses e a constituição de uma economia de latifúndios. A introdução do regime parlamentarista, em 1843, confirmou a dominação política dos novos latifundiários, que, naturalmente, moravam nas cidades e consideravam suas terras como colônias distantes, deixando-as, por isso, nas mãos de capatazes ou arrendatários.
Dessa forma surgiu um enorme proletariado no campo. Até a eclosão da Guerra Civil, três quartos dos habitantes de Andaluzia continuavam sendo braceros, diaristas que vendiam sua força de trabalho por um salário de fome. Nas épocas de colheita imperava a jornada de doze horas; na outra metade do ano o desemprego era quase total. Os resultados não poderiam ser outros: pobreza endêmica, subnutrição e exôdo rural." (pg.33)

Guardia Civil:
- cuidadosamente escolhidos
- serviam longe de suas cidades
- proibidos de casar
- proibidos de ter amizade com moças da região
- sempre armados e em dupla (la pareja)

"Por tudo isso, nas aldeias andaluzas o ódio contra a classe social adversária manifestou-se, até os anos 1930, como uma permanente guerra de guerrilhas primitiva que aumentava pouco a pouco até chegar a revoltas súbitas e espontâneas por parte dos camponeses. Estes levantes liberavam uma violência instintiva das massas e eram combatidos com um desprezo pela morte nunca visto. Eles transcorriam sempre segundo o mesmo estereótipo: primeiro, os camponeses matavam membros da Guardia Civil, prendiam padres e burocratas, incendiavam igrejas, queimavam cadastros de imóveis e contratos de arrendamento, aboliam o dinheiro, diziam-se livres do Estado e declaravam, por fim, independentes as comunas, decidindo explorar a terra em conjunto. É espantoso comprovar como estes camponeses, em sua maioria analfabetos, seguiam à risca, sem sabê-lo, os ensinamentos de Bakunin. Mas, como as revoltas fossem estritamente locais e conduzidas sem nenhuma organização, em poucos dias viam-se derrotadas, não sem derramamento de sangue, pelas tropas do governo." (pg.34)

Ilustrado/Trabalhador Consciente:
- não jogava e não bebia
- não se casava com a mulher a quem era fiel
- não permitia o batismo dos próprios filhos
- declarava-se ateu
- lia muito e procurava transmitir tudo o que sabia

"Os anarquistas nunca se consideravam um partido político: entre seus princípios inclui-se não participar de eleições parlamentares e não aceitar cargos administrativos. Eles não querem apoderar-se do Estado, e sim aboli-lo. Mesmo em suas próprias ligas os anarquistas combatem a concentração de poder no cume da organização, ou seja, na central sindical. Suas federações são orientadas pelas bases: cada grupo local goza de uma ampla autonomia, e, pelo menos na teoria, a base não é obrigada a curvar-se às decisões do comando. Isso depende, naturalmente, das condições concretas de como esses princípios são efetivos na prática." (pg.36)

"O golpe que deveria por abaixo a velha sociedade veio da direita. A direita estava decidida, desde a fundação da Frente Popular, a derrubar à força o governo eleito. Para isso eram necessários preparativos de ordem ideológica e na forma de organização. Os modelos de como a reação poderia abandonar seus sonhos de restauração e passar à ofensiva foram tirados da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini. Além disso, as potências do Eixo prometiam auxílio material e de propaganda. A Falange espanhola começava a crescer. O Exército preparava o golpe de Estado. O confronto era mais do que previsível. O governo hesitava. Os generais atacaram: em 17 de julho, Franco pôs-se à frente de uma revolta militar no Marrocos espanhol. Em 18 de julho, o putsch se alastrou pelo continente. Três dias depois, um terço do país estava nas mãos dos generais: a ultra-católica Navarra, uma parte de Aragón, Galiza, León, Castella Velha, Sevilha, Cádiz e Córdoba. Os golpistas não contavam com nenhuma resistência mais séria. Mas fizeram seus cálculos sem contar com o povo espanhol." (pg.88)

"Onde está o inimigo? Nesta história ele sempre emerge à margem do campo visual: uma mancha na janela, atrás de uma metralhadora; uma sombra além das barricadas, um velho num escritório, uma silhueta numa trincheira. Ele permanece quase sempre anônimo, mas ao mesmo tempo é onipresente. Não se trata de uma suposição ilusória. Revolução e guerra são duas coisas diferentes. Para quem deseja não apenas vencer um inimigo militar, mas também transformar a sociedade em que vive, não há uma linha demarcatória nítida que o faça distinguir o amigo do inimigo." (pg.225)

"Quanto mais transcendentes os valores pregados por uma ideologia, tanto maior é, em geral, a falta de escrúpulos de seus defensores." (pg.228)

"A total irracionalidade das palavras de ordem foi benéfica para o fascínio ideológico do fascismo. Na Espanha, como antes na Itália e na Alemanha, ele mobilizava forças inconscientes de cuja existência a esquerda não tinha nenhuma ideia: medos e ressentimentos, vivos também na classe trabalhadora. Os anarquistas prometiam (mas não podiam realizar) um mundo inteiramente laico, mundo futuro onde Estado e Igreja, família e propriedade cessariam de existir. Ora, estas instituições não eram apenas objeto de ódio, mas também se confiava nelas, e o futuro da anarquia despertava não só nostalgia como também medos obscuros de pulsões elementares. O fascismo, ao contrário, oferecia o passado como o burgo de refúgio - um passado que naturalmente nunca existiu. O ódio ao mundo moderno (mundo esse tão mal-recebido na Espanha desde o Iluminismo) podia entrincheirar-se numa Idade Média fictícia, e a identidade ameaçada podia aferrar-se às grades institucionais do Estado autoritário." (pg.229)

domingo, 21 de junho de 2015

A Outra Volta do Parafuso (Henry James) #trechos

"Eu costumava especular - mas mesmo isso fazia-o de modo vago, dissociado - sobre o modo como o futuro impiedoso (pois todos os futuros são impiedosos!) lidaria com eles, talvez machucando-os."

"Lembro-me de ter com Miles, em particular, a impressão de que, por assim dizer, ele não tinha história. De uma criança pequena espera-se uma história curta, mas havia naquele menininho lindo algo de extraordinariamente sensível, e no entanto de extraordinariamente alegre, que, mais do que em qualquer outra criatura de sua idade que eu já tenha conhecido, me dava a sensação de que ele começava do início a cada dia. Ele jamais, por um segundo que fosse, sofrera."

"Constato que hesito diante do abismo; mas é preciso dar o salto."

sábado, 18 de abril de 2015

Sagas and Space - Thinking Space in Viking Age and Medieval Scandinavia

https://www.coursera.org/course/sagaspace
Anotações das aulas do curso oferecido online pela Universidade de Zurique

Eddic Cosmography

Prosa Edda - provavelmente é a mais importante fonte textual na Antiga Mitologia Nórdica. Escrita e composta por volta do ano 1225 na Islândia.
Muitos defendem que foi escrita por Smorri Sturluson (um poeta e político muito influente, e também historiador desse período na Islândia)
Por esse motivo, alguns a chamam de Smorra Edda.
Transmitida principalmente em quatro redações ou versões principais, nenhuma delas é considerada o texto original, hoje em dia.
O manuscrito mais antigo que se tem se chama Codex Upsaliensis e é datado de 1300.
Os outros três principais manuscritos foram escritos entre 1325 e 1600.
Os três compartilham mais ou menos do mesmo texto, mas diferenciam-se no comprimento e escrita.
Dividido em Quatro Partes:
- Prológo
- Gylfaggining (The Tricking of Gylf)
- Skáldskaparmál (Language of Poetry)
- Háttatal (List of verse forms)

Prólogo - Como deus criou o mundo, e como esse mundo é dividido em três partes.
Centro do mundo: Troy - na cidade de Troy a humanidade é melhor do que em qualquer outra parte do mundo. Odin é o rei de Troy. Odin e seu povo têm o poder da profecia, e ele vê que ele e seu povo serão adorados como deuses no parte norte do mundo. Ele se estabelece na Escandinávia, onde o povo sueco, o povo loca, os vê como deuses.
Divisões do mundo:
África (muito quente)
Europe ou Enea
Asia (onde fica Troy)

Gylfaggining - Passa-se todo onde atualmente é a Suécia, onde um homem chamado Gylf, que decide visitar Æsir (que vem da Ásia). Gylf quer saber se os deuses realmente são deuses ou se têm poderes cedidos pelos deuses. Æsir prevê sua aproximação e prepara ilusões para enganá-lo. Gylf encontra um grande salão com três deuses e começa a questioná-los sobre os deuses e o fil do mundo.
Os homens receberam uma alma perene, ainda que morram.


Poetic Edda

Codex Regius - Coleção de tradicionais poemas anônimos, registrado por volta de 1217 na Islândia.
Os poemas falam sobre as divindades pré-Cristãs e sobre a história de heróis lendários da Antiguidade Escandinava e Germânica. Assume-se que é fruto da tradição oral transmitida através de gerações.
Descreve um poderoso freixo chamado Yggdrasil. De um lago sob a árvore vêm três sábias garotas, e essas garotas determinam o destino das pessoas.
Ymir surge como resultado do encontro de um continente muito quente com outro muito gelado.
De sua carne fazem a terra.
Vafprunismal (poema - Poetic Edda) - Odin e sua esposa estão sentados em um salão real.

Na borda do céu há um gigante disfarçado de águia, que senta-se ali e bate suas asas. É de onde vem o vento.
Grímnismál - há uma sequencia de salões.




Não se sabe quem os compilou.

O primeiro poema se chama Völuspá (The prophecy of the "völva"/ "The seeress's prophecy)
Völva diz que se lembra de nove mundos e uma poderosa árvore abaixo da Terra, num tempo antes que houvesse areia, mar e ondas. Apresenta também uma imagem dos deuses jogando um jogo de tabuleiro no prado.
Muitas das imagens de Völuspá concentram-se sobre o apocalipse de Ragnarök. Durante essas descrições a völva aponta uma série de pontos cardeais por onde os inimigos dos deuses se aproximarão. Segue-se a descrição de uma bela renovação que se iniciará mais tarde.



Criação em Völuspá:

"It was at the beggining of time when Ymir lived..."
Criação em Gylfaginning:
"It was at the beggining of time, when nothing was..."



Os descendentes de Ymir são gigantes, e ele tem três irmãos. Um dos quais é Odin. Odin é o maior dos deuses conhecidos.

Odin e seus irmãos cortam Ymir em pedaços. E dos pedaços de Ymir constroem o novo mundo.
De seu sangue fazem o mar.
E de seu crânio formam o paraíso e os céus.




Há um rio mitológico chamado Ifing que divide as terras dos deuses e dos gigantes, e que flui para sempre. Ele nunca pára e o gelo nunca o congela.




Njörôr vive em Noatún.

Odin tem mais de um salão. O mais famoso é Valhalla, que tem 540 portas. E através cada uma dessas portas, 800 guerreiros podem passar simultaneamente. Um outro de seus salões é o Sökkvabekkr, onde os deuses se encontram para um happy hour. O salão fica sob as ondas e eles se encontram e bebem todo o dia sob o som das ondas acima deles.



Space of Literature:



"All space is mental and this is a profound philosophical truth in the sense that we do not have immediate acces to space, we have to represent it."